A Morte

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18–27 minutos

A morte, diferente do que é reforçado culturalmente, nunca chega de surpresa. Pelo menos era assim que pensava José enquanto, ao nascer do sol, cavava sozinho, ao topo de uma grande encosta, a cova de sua amada.

O impacto, entretanto, não é de forma alguma menos arrebatador. Ele mesmo reforçou por muitas décadas essa mentira, viu familiares distantes, e até amigos de amigos, que subitamente iam-se. Mas sua experiência, vendo pela primeira vez alguém próximo partir, foi diferente. Há meses acompanhava o estado físico e mental de Marta decair cada vez mais, se tornando mais dependente de seus cuidados.

Não tanto antes disso haviam se mudado para aquela casa onde moraram seus últimos anos juntos. Já muito velhos para aproveitar a antiga vida agitada no centro da cidade, decidiram, como muitos o fazem ao chegar nessa idade, juntar as economias e comprar uma terra aonde pudessem passar seus dias de forma mais tranquila. Marta foi quem havia dado a ideia, estava realizando um de seus maiores sonhos: aposentar-se no interior com seu marido podendo fazer o que mais gostava: pintar.

A cada duas semanas um quadro novo era pendurado na casa, até se esgotarem as paredes. Ela sempre gostou de pintar por observação, havia dezenas de pinturas da mata atlântica que os cercava; da casa simples, mas espaçosa, de apenas um andar e pintura bege; vez ou outra também representava a estrada que passava na frente do seu terreno e os conectava com os distantes vizinhos; e por vezes ainda mais raras o próprio José, o qual ela pintava com afinco, dando atenção a cada ruga, ao dedo que lhe faltava, a cada fio branco restante do cabelo e mancha na blusa que ele se recusava a lavar, mas principalmente no seu sorriso, geralmente imperceptível aos outros, mas que era o detalhe que quebrava sua casca carrancuda.

Ele não tinha uma paixão como a dela, na verdade, havia tentando alguns hobbys artísticos como o de sua esposa, mas nunca sentiu ter jeito para aquilo. Seus dias seriam muito monótonos se não fosse pela parceira. Pouquíssimas eram as vezes que decidia fazer algo sem Marta. Quando eventualmente saiam para a cidade – seja para resolver questões burocráticas, comprar novos móveis para casa ou contratar alguém para revitalizar a pintura da casa – sempre estavam juntos. José nunca dizia, mas quase que fazia questão da companhia, ela já era parte dele, então era natural que sempre estivessem juntos.

Por volta daquele tempo José tinha se incomodado com a forma como sempre parecia sisudo, passou boas tardes tentando moldar sorrisos. Seus esforços não deram frutos, aparentemente seu rosto já não se encaixava mais com aquelas feições, e ele resmungava para si: “Me tornei realmente um desses velhos amuados”. Não era a primeira vez que tal insegurança batia. Sempre que olhava para Marta via em seu rosto aquele sorriso tão genuíno que o desconcertava como se ainda fosse um jovem vivendo a paixão. Gostaria de poder sorrir para ela de mesma forma.

Mas algo mais importante era a causa desse problema, José não sentia mais que os sorrisos dela eram tão verdadeiros quanto antes foram, de uma semana a outra sentiu que Marta se afastara dele. Ela frequentemente fugia de conversas com José e o entregava uma felicidade incompleta. Não surpreendente, pela mesma época, uma das amigas de Marta – e consequentemente também amiga de José –, ao encontrá-lo em um mercado comum a quem morava na região, o disse algo similar: — Sabe, Marta tem parecido distante nos últimos dias. Ela está bem? — Naquele dia ele não soube como responder — Você deveria falar com ela — aconselhou, por fim, a amiga.

Era um conselho simples, bobo, até. Mas para José nunca havia sido tão fácil, era acostumado a manter as coisas para si, por vezes até mesmo ele não entendia bem o que sentia. Marta, por sua vez, sempre compreendeu esse seu lado e, com jeito, frequentemente soube guiar as conversas quando seguiam para esse rumo que para ele era desconhecido. Antes, em um momento de fragilidade no casamento, esse seu mesmo afastamento quase os distanciou para sempre, ele se culpou muito na época, mas tendo as coisas se resolvido, acabou por deixar o problema se arrastar por mais tempo.

E agora o atacava de novo, a mesma ansiedade daquela época: Marta se afastava dele por motivos que para ele pareciam difíceis de entender, e ele não sabia como introduzir uma conversa sobre o assunto. É por isso que tentava forçar um sorriso, era uma atitude simples, mas que Marta perceberia – como ela sempre percebeu – que ele estava tentando fazer algo, e isso seria suficiente para ela o contar o que a afetava. Pelo menos era o que esperava, enquanto em um daqueles últimos dias de primavera, ele, mais uma vez, saiu sozinho para caminhar.

Caminhadas solitárias dificilmente o agradavam. Sem Marta, a caminhada era sempre muito quieta. Ela adorava falar, e ele, escutar. Comentava sobre tudo que a chamava atenção, observando detalhes que apenas olhos de uma artista eram capazes, e fazendo o ambiente parecer mais vivo. Além disso, como alguém que trabalhou em escritório por toda sua vida, a ideia de andar em frente, aparentemente sem rumo – embora ele seguisse uma trilha –, não fazia sentido em sua cabeça. Mas como ela parecia ainda menos interessada do que ele, se tornou cada vez mais comum que José acabasse por cumprir planos, que antes sempre eram feitos em dupla, sozinho.

Dado isso, a mata se acostumou a ver José cruzá-la, de cara emburrada e pouco interesse todas as vezes, mesmo que continuasse vindo. As árvores não tinham nada de especial, eram todas verdes, com no máximo alguns tons diferentes; a grama em nada se destacava também, eram pequenos cabelos que saiam de um chão sujo e barrento pós-chuva; de vez em quando um passarinho mostrava o seu canto, mas mais servia para incomodar do que inspirar José.

No fim das contas, mesmo em meio a tantos incômodos, algo de fato veio a sua mente, lembrou da conversa que teve com a mesma amiga de antes no dia anterior, ela o dissera: — Você já a conhece há tanto tempo. Apenas pergunte a ela o que há. Ela não ficará incomodada, aliás, acho que é isso que ela espera que você faça.

Na ocasião José agradeceu o conselho e, por educação, disse que era o que faria a seguir. Porém, mesmo após muito tempo de reflexão, parecia não importar o quão bem ele conhecia Marta, não havia jeito simples de introduzir o tópico. Ele caminhava na mata com aquele pensamento em mente, sempre o disseram – Marta inclusa – que andar meio a natureza era relaxante e dava espaço para ótimas ideias. Ele discordava, mas mesmo assim estava lá, esperando que das árvores viesse magicamente para sua mente a melhor forma de falar com a esposa.

Ao parar em uma pequena clareira, nada diferente de muitas outras que já encontraram nessa mata, ele decidiu por dar uma última chance. Todos gostavam dessas coisas, e ele não poderia ser tanto uma daquelas pessoas chatas, portanto parou para perceber novamente a mata. Inalou o cheiro úmido e desgostoso da terra, tentou sentir com as mãos as cascas ásperas e feias das árvores, e até se propôs a ouvir os farfalhares irritantes das folhas. Nada o cativava, por mais que tentasse. Estava prestes a ir embora, provavelmente para repetir a quebra de sua própria promessa, culpando a falta de inspiração, quando ouviu um único som, metálico e muito alto, diferente dos outros, de algum animal que ele não conhecia – mas um pássaro, com certeza.

O som não era majestoso, longe disso, até mesmo podia se dizer que era incômodo aos ouvidos, mas era diferente, não se encaixava no ambiente, e aquilo atiçou a curiosidade de José, que decidiu por seguir um pouco mais. A partir dali não existia mais trilha, ele era obrigado a forçar para o lado os arbustos com as pernas e se abaixar de galhos que de outra forma bateriam em sua cabeça. O caminho não foi longo, mas tortuoso o suficiente para fazê-lo se arrepender rapidamente da decisão, porém o som do pássaro era instigante, ele sentia um impulso, o levando a seguir aquele som até sua origem.

— Malditas plantas — resmungava a cada tropeço que dava em galhos ou pedras jogadas pelo chão.

Depois de trotar entre um terreno instável e árvores muito próximas, ele quase sentia raiva do pássaro que fazia aquele som tão belo. Finalmente estava em alcance dele, e se surpreendeu quando de súbito a mata abriu para mais uma clareira, muito maior e que, desta vez, parecia artificial. A trilha reapareceu e, seguindo-a com os olhos e em direção ao som estridente e quase incomodativo do pássaro, pôde ver algo verdadeiramente inesperado. Um gazebo se apresentou, escondido em meio àquela paisagem, e em cima dele um pequeno pássaro branco e de rosto azul claro, o encarando com curiosidade, o responsável pelo canto que o levou até ali.

O gazebo estava muito desgastado, parecendo que cairia a qualquer momento. Haviam seis pilastras que se erguiam ao redor de um piso hexagonal um pouco acima do chão, tudo feito de madeira, e entre elas uma cerca baixa e carcomida pelo tempo rodeava a estrutura, aberta apenas na parte onde alguns degraus permitiam a entrada. O teto era de telhas esverdeadas e possuía duas fases em formato de cone, a segunda, menor, servindo como um chapéu para a primeira, ou pelo menos assim deveria ser, pois mal lhe sobrava qualquer sustentação. Seguindo a trilha que passava pelo gazebo, José ainda teve mais uma grande surpresa.

Pouco à frente da construção, um penhasco íngreme levava até a beira de um enorme lago de água calma e cristalina, rodeado por árvores por todos os lados, intocado por qualquer pessoa. O cenário não o encantava tanto quanto o gazebo, mas sabia que seria diferente para a esposa. Naquele momento sua cabeça transbordava de ideias, estava inspirado e parecia que pela primeira vez entendia um pouco da admiração que as pessoas podiam ter por essas paisagens. De certo, sua cabeça logo retornou para Marta, e ele sabia exatamente o que deveria fazer.

Quase três semanas depois, dentro de uma rotina que seguiu muito similar, mas com momentos em que José era obrigado a esconder de Marta o que estava fazendo, e as pessoas que o vinham ajudar, ele terminou o seu tão ousado projeto. No fim das contas, nunca teve a conversa com sua esposa sugerida pela amiga, mas havia se convencido de que seu presente seria melhor do que qualquer discussão, e foi com essa intenção que ele voltou para Marta aquele dia. Chamando ela, como uma criança animada para mostrar a mãe sua criação, ele a levou por dentro da mata com um sorriso verdadeiro, que Marta há tempos não via e que ela não ousou apontar, com medo de que se perdesse.

— Você não vai me contar, não é mesmo? – ela provocava frequentemente enquanto caminhavam.

— De forma nenhuma.

Chegando a clareira que antecedia o grande presente, ele pediu que Marta parasse e tampasse os olhos, orientando que seguissem a partir dali dessa forma. Ele sentiu os dedos enrugados se apertando na mão dele, tremendo, julgando que tentavam não se soltar dele. Embora não quisesse admitir, José estava ansioso, caminhavam agora pela trilha que ele reformou, afastando todos os obstáculos que o fizeram tropeçar e galhos nos quais ele bateu o rosto na sua primeira desventura por essa área. Não demorou para que chegassem no mesmo local que ele chegou naquele dia. Sem paciência para suspense, ele logo a permitiu abrir os olhos.

José assistiu enquanto ela demorou para se acostumar com a luz que vinha por entre as árvores, ainda era manhã e o sol do início do verão era sempre agressivo. Sua testa deixou de franzir e o rosto levou os olhos a passearem pelo ambiente, até finalmente pousarem com delicadeza sobre o gazebo. Lentamente a mão dela se soltou de José, enquanto ela caminhava, passando uma eternidade em cada passo, em volta da pequena construção, totalmente reformada e pintada, mas seguindo o mesmo modelo de quando o encontrou. A madeira escura e envernizada brilhava, e as telhas esverdeadas agora cintilavam a cor esmeralda mais do que nunca.

José a ajudou a subir as escadas, animado para uma das principais partes da surpresa e orgulhoso pelo que tinha feito. Mas a reação de Marta o assustou, a felicidade no rosto dela parecia ter desabado no momento que viu suas ferramentas de pintura montadas no centro do gazebo.

— Vamos, Marta! — ele disse, tentando não transmitir a insegurança que sentiu ao ver o olhar dela — Há tempos que sinto saudade de vê-la pintar.

José viu como as palavras pesavam ao sair dela, e o seu próprio coração doeu quando os olhos da esposa se encheram de lágrimas.

— Ah… José. Eu não posso.

A princípio ele não entendeu, mas já esperava o pior. Delicadamente ela se sentou na banqueta ao lado do cavalete, pegou um pincel e uma tinta azul qualquer ao lado. Os braços rígidos e os olhos fixos na tela, ela tentou traçar um caminho com o pincel. José compreendeu, então, ao ver as mãos antes tão precisas da amada tremerem para sequer segurar a ferramenta, incapazes de pintar uma simples linha reta. Seu rosto naquele momento não expressou uma emoção exata. Estava triste, por ela, mas ao mesmo tempo também sentia raiva por não ter antes ouvido antes ao conselho da amiga.

Eles passaram algum tempo quietos após aquilo, José caminhou com ela o resto do espaço, foram até o penhasco que ele tanto ansiava para mostrá-la, mas, nesse ponto, ele já evitava os olhos da esposa, então não soube o que ela pensou. Passaram o resto da manhã sentados no banco de madeira e metal que ele havia posicionado frente a encosta. Antes, o objetivo dele era ser o lugar no qual eles pudessem admirar a vista e, em outra situação, transpor aquela paisagem para a tela. Agora, ele não sabia mais o que aquilo representava.

— Perdão. — José quebrou o silêncio — Eu deveria ter entendido a situação antes.

— Você não tinha como saber. — Ela evitava o seu olhar — Eu não queria que soubesse.

— Nós poderíamos ter conversado — lamentou. — Eu deveria ter ido atrás de saber.

Marta não respondeu, e José nunca foi capaz de decifrar seu rosto naquele dia. O cabelo dela, que era palco de uma guerra entre um castanho claro e o novo branco que tomava conta, cobria a maior parte de sua face. Ele esperava que ela o repreendesse, de certa forma até queria que ela fizesse. Talvez nunca tivesse havido uma solução correta, mas ele jamais se perdoou por não ter tentado.

Os meses seguintes não foram fáceis para nenhum dos dois. Na mesma semana, José insistiu para que Marta fosse em um hospital, sabendo, agora, que ela havia evitado os médicos desde que descobriu a condição. O diagnóstico não foi nada assustador, era um caso comum para a idade: artrose nas mãos. Ao mesmo tempo que havia alívio em José por saber que não era nada grave, e que Marta não corria nenhum tipo de risco, a constatação de que não haveria volta não recaiu bem para nenhum dos dois.

José esperava que depois disso tudo, ela poderia voltar um pouco a como antes era, aliás, estavam agora lidando juntos com a situação. Ele se martirizou por demorar a agir, mas agora que agia, torcia para que Marta fosse mais aberta com ele, da mesma forma que se esforçava para ser com ela. Esse retrocesso nunca chegou, o relacionamento melhorou em comparação ao estado de um mês antes, até pode se dizer que entrou em uma nova fase de cooperação, mas nunca foi o mesmo. E para ele, vivendo o dia a dia com Marta, esse fato se tornava mais evidente a cada semana que passava.

— Eu sinto que finalmente aceitei isso — disse Marta, lentamente colocando o livro que lia ao lado, em uma das muitas tardes amenas que passaram no gazebo.

— O quê?

— Eu sinto medo de envelhecer — concluiu, enquanto José escutava com atenção — As minhas mãos me lembram disso a todo momento. Eu sinto que minha hora está chegando.

José passou a não gostar tanto daquele ambiente, ele era transbordado de lembranças sempre que iam para lá. Marta, por outro lado, parecia vivaz ao mencionar o “lugar especial” que eles compartilhavam, e ansiava por passar horas ao lado de José sob o teto do gazebo, ou encarando a vista do lago, que, de acordo com ela, sempre era diferente. Mas, para José, o pior era isso, sempre que vinha para cá, ela iniciava conversas difíceis de se ter, e ele tinha dificuldade de lidar com elas de uma maneira boa.

— Do que você está falando?! Veja, você está ótima. — Ele gesticulava com as mãos — Estamos velhos, sim. Eu também não gosto disso. Mas gosto menos ainda que você insista nesse sofrimento, a hora de ninguém aqui está chegando.

— Certo, certo! — Ela sempre o dispensava assim, por meio de um gargalhar leve, enamorada pela sua preocupação. Porém, dessa vez, ela seguiu. De feição leve, mas olhos certos do que se falava — Mas eu sinto, José. Mal tenho capacidade de caminhar até aqui sozinha, não sei há quanto tempo não consigo sair para o mercado do lado, e mesmo minhas amigas já não sabem esconder a preocupação de mim. Você tem precisado de esforçar tanto para cuidar de mim…

— E isso nada muda, já disse! Cuidarei de você pelo tempo que for preciso — afirmou, com uma determinação que transbordava junto a saliva. — Mas mais importante, querida. Você é ainda é sã. Se duvidar, ainda mais sã que eu! Enquanto a mente estiver ativa, o corpo seguirá forte.

— Às vezes me pergunto se minha mente realmente continua sã…

Se José fosse sincero consigo mesmo, ele também não tinha certeza. Ele sabia que Marta não tinha sido mais tão feliz desde que suas mãos perderam a força e a precisão, mas não se limitou a isso. Ele a acompanhava na rotina, e a cada dia era mais como ela havia dito: ele se tornara necessário para as atividades diárias dela. Todo dia ele precisava ajudá-la a se levantar da cama, a caminhar até a cozinha e a trazer o café da manhã. Ele nunca se incomodou de ter Marta se tornar dependente dele, mas sabia como ela prezava pela própria independência.

Ele podia sentir Marta adoecendo, e essa doença não vinha do corpo.

— Eu estou lenta, não tenho mais forças. Não é só sobre a pintura, mas ela era meu último elo com minha antiga juventude, nada mais resta agora — desabafava, e José sabia que era melhor não interrompê-la — Eu vivo feliz com você, e me pesa dizer isso, mas não é suficiente pra preencher esse vazio. — Ela enrugava o rosto, fazendo força para manter sua expressão de convicção. — Quando eu me for, quero que me enterre aqui, de frente para o nosso lago, ao lado do nosso gazebo.

José se levantou, em um impulso movido pela surpresa, ele se indignava da forma como ela falava da sua morte, como se fosse certa, como se amanhã ela já não estivesse mais lá. Ele nunca se lembrou do que disse para ela naquele momento, nunca lhe voltou a mente as palavras de repreensão que ele disse para ela. Talvez tenha esquecido inconscientemente para esconder a vergonha, ou conscientemente para não ter que lidar com o fato do que aquela ação o trouxe. Fato é, ele sabe que, por causa do que disse naquele dia, Marta, até o fim, não agiu da mesma forma com ele.

O quarto estava escuro naquela noite, poucos meses depois. José abriu a porta lentamente, passos que não tinham intenção de tocar o chão e os olhos fixados na amada que dormia com a respiração pesada, ameaçando parar a qualquer instante. O quarto tinha, não somente, a parede nua, todos os quadros de Marta que antes ficavam pendurados ao redor da cama de casal foram retirados por pedido dela. As plantas, os livros e até o tapete, encomendado por ela em um outro momento, agora tão distante, fizeram parte da lista de itens proibidos no quarto.

A única luz que descia até os dois era o brilho tímido da lua, mal sendo capaz de iluminar a proporção do sofrimento que cabia em apenas um cômodo. José colocou um copo de água ao lado de um pacote de pílulas no criado-mudo ao lado da cama, se agachando ao lado de onde ela deitava. No último mês, Marta foi obrigada pelas enfermeiras a tomar remédios para as inúmeras dores que sentia, mas apenas José conseguia fazer ela seguir a orientação, todo dia, três vezes ao dia, pelo último mês.

Eles não se falavam mais, pelo menos não da forma como havia sido antes. Marta pedia o café quando acordava, agradecia quando José a entregava a comida; depois pedia para ir até a sala, mudar um pouco de ambiente, e o agradecia quando ele o fazia; quando ainda conseguia se manter de pé, pedia para que a levasse ao gazebo, e o agradecia quando voltavam. Como uma máquina. Ele sentia a distância, como se ela apenas mantivesse a cordialidade, como se os anos juntos subitamente se tornassem algo do passado.

Ele não sabia o que ela pensava, não tinha como. Não sabia se, naquele dia sob o gazebo, ela se decepcionara com ele, se tinha deixado de confiar nele, ou, como ele havia passado a interpretar, se havia perdido quem ela achava que teria a seu lado até o fim. Claro que ele estava lá, mas José nunca aceitou, nunca pôde aceitar, a inevitável partida dela. Marta tinha medo, tanto quanto, ou até mais, que ele, e quando ela tentou ser forte, ele não conseguiu, e ali se criou a distância. Talvez ela achava que o protegia enquanto se machucava a cada dia mais, ou simplesmente não queria ter que lidar com o sofrimento dos dois.

Ele tentou conversar com ela, quebrar a distância antes que fosse tarde demais, tentou consertar o erro que ele sabia que havia cometido. Ela dizia desculpá-lo, dizia que ele não tinha culpa em ter medo, e todas aquelas coisas que ele sabia serem ditas em vão, e realmente eram, pois, no fim, tudo se mantinha da mesma forma. Hoje, tudo que ele podia fazer, era sentar do lado dela, com dois enfermeiros do lado de fora do quarto, esperando que ela parasse de respirar.

— É inevitável — eles disseram a José, um pouco mais cedo no mesmo dia — Não guarde as palavras na despedida. Palavras nunca são demais. — Dessa vez, ele decidiu que aceitaria o conselho.

José balançou ela com a delicadeza de quem não quer atrapalhar o descanso de um bebê, repetindo “Marta” em um cochicho. Ela se virou com dificuldade, gemendo com o esforço, e estendeu a mão para ele. Ele a pegou, sentindo sua mão como se fosse a primeira vez. As rugas, não ásperas como as dele, mas suaves e delicadas, que cobriam toda a palma e os dedos; os ossos que ele conseguia sentir através da magreza dela; o calor enfraquecido do toque, que se agarrava com força a vida que sobrava em Marta; e a força com a qual ela o segurava de volta, tão sútil que ele mal sentia, mas que se recusava a fraquejar.

— Desculpe… — Ele pensou bem antes de continuar, esse não era um momento para se desculpar — Obrigado — corrigiu —, Marta. Querida. Eu errei com você, mas… — Não, de novo. Isso ainda não estava certo — Nós compartilhamos tantos momentos, lindos momentos, que eu não saberia como colocar em palavras. Eu nunca soube. Você sempre me deu tanto, sua presença sempre foi um sinal de felicidade para mim. E eu sei que nem sempre eu pude entregar o mesmo. Mas eu estou aqui, eu sempre estive aqui, e eu permanecerei aqui por todo o tempo que eu puder. Eu te amo, Marta! E espero que não seja tarde para dizer isso.

Quando percebeu, já era manhã. Ele estava longe de casa, no meio do mato, com uma pá na mão, próximo do banco de madeira e metal que observava o lago. Ele lembrava da noite anterior, conversou com Marta por horas sem parar, ela dormiu e acordou várias vezes durante esse intervalo, às vezes parecia que tentava abrir os olhos para olhar para José, outras que tentava responder para ele alguma coisa. Naquela noite ele não recebeu dela nenhuma resposta, mas não era um problema, pois aquele era o momento de retribuir ela, ele tinha que falar como a amava, dizer a ela tudo que se arrependeu de deixar guardado, e foi isso que fez. Ele estava triste, mas contente de ter feito certo pelo menos uma última vez.

O sol finalmente o alcançou naquele ponto onde ele havia escolhido. Dali, tinha a melhor visão do lago, mas também era possível ver o gazebo e ainda não ficava tão distante do banco onde sentaram. Ali foi onde ele escolheu para cavar a cova de sua amada, como um último adeus e uma última retribuição, depois de sentir as mãos delas quentes pela última vez. Ali foi onde José chorou ao se despedir de Marta.

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