Cicatriz de Argila

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21–31 minutos

Havia um homem em sua frente, mas esse homem não era argila. Argila era argila: era macia se molhada com água, ou enrijecida através do fogo ou do tempo; quando endurecida, era resistente e duradoura e com ela poderia construir casas, muros, fornalhas e até fortalezas; ela era flexível, mas limitada; também era bonita, mas dependia muito de como fosse feita e da cor escolhida. Agora, um homem? Um homem era complexo, este homem em sua frente, seu mestre, havia feito diversas coisas: havia conversado, exprimindo sons através de sua boca; havia caminhado e pulado, quando rodou a sala em comemoração apenas um pouco mais cedo; havia criado ele e para isso utilizou habilmente de suas mãos e de sua inteligência; além disso, ele havia morrido.

Seu mestre estava jogado em sua frente, morto com um buraco que atravessava seu rosto, feito por um objeto pontiagudo, onde anteriormente ficava seu olho esquerdo.

O corpo parecia abobalhado, caído em uma posição constrangedora, braços por cima e abaixo da coluna e pernas dobradas esparramadas como o sangue que escorria de seu rosto, além de seu olho, o que restara, que se esbugalhava através da pálpebra inútil. Mas algo lhe faltava ali, algum tipo de brilho, de consciência por trás daquele olho. Lhe faltava vida. Vida não deveria ser possível de ser vista, ou sentida, de nenhuma forma, mas ali, a ausência dela parecia ser evidente, quase tangível.

Como era curioso a forma como um homem morre, como, em um momento, pode perder sua vivacidade e se tornar apenas um objeto jogado pelo chão da sala, não mais falava, se mexia ou expressava sentimentos, mas ainda assim, era como se a qualquer momento pudesse voltar a fazer todas essas coisas, já que a casca do que antes era permanecia a mesma. Era diferente da argila que, se morresse, ou, neste caso, fosse destruída, perderia a sua forma, não haveria casca para enganar ou supor seu retorno, se fosse destruída, apenas alguém que a conhecesse anteriormente a “morte”, poderia retorná-la para forma original, e seria feito imperfeitamente.

Mas aquele homem jamais poderia retornar ao que era antes, estava morto.

O homem de argila pensou, por um momento, em como seria morrer. Seria sua morte uma morte de argila ou uma morte de homem? Não sabia. Poderia ter perguntado isso para seu mestre, mas ele estava morto. Por que havia feito isso? Não entendia muito bem ainda se o instinto que o levou a essa ação foi oriundo de sua parte argila ou de sua parte homem, havia tanto ainda que desconhecia sobre a natureza dessas duas origens que o compunham. A arma que o matou, sua mão moldada, com certeza foi da natureza da argila. Portanto seria o intuito de matá-lo humano?

Ele viu o sangue que escorria através do chão de pedra para próximo de seu pé, esquivando dele com um passo curto ao lado. Esse passo foi atontado, ainda não havia dominado totalmente a habilidade das pernas. Sua cabeça entortava para o lado enquanto admirava o grosso líquido carmesim tingir o chão enquanto passava, se espalhando pelo chão impermeável feito de pedra e algum tipo de barro. Algum tipo de arrependimento lhe subia à medida que via seu reflexo árido naquele líquido, um desgosto por tudo aquilo, pelo que fez ou pelo que via – ainda não sabia dizer. Será que havia feito certo? A morte parecia tão assustadora agora que a encarava, será que não havia algum jeito de ter se resolvido com ele de outra maneira? Como poderia descobrir?

Dentro da sala, observou com o olhar de um recém-nascido o ambiente, tudo a ele brilhava com novidade, embora, curiosamente, soubesse o nome e a função de grande parte das coisas que presenciava. Se lhe apontasse para a panela de barro sobre a lareira e para os legumes que ela cozinhava, saberia nomear ambos, mas falharia rapidamente em responder o que faziam ou para que serviam. Era uma das consequências de não ser totalmente humano, ele supunha. Apesar disso, algo chamava mais atenção do que o resto, pois reconhecia ali uma coisa diferente do resto que o cercava, algo que possuía vida e era homem assim como ele: uma jovem de cabelos negros e pele barrenta o observava com olhos perolados por detrás da porta que dava para a sala onde estava, uma única gota de suor descia de seu rosto. Ela não gritou, mas assim que foi vista, correu imediatamente para dentro do corredor negro.

Ela parecia assustada, por que? Tentou dizer algo para ela, quantas coisas não pensou em perguntar, mas de sua boca apenas ar saiu, inútil era um homem sem voz, portanto, enquanto não falasse, andaria em sua direção.

Fora da sala, ele se viu em um corredor sem início nem fim evidente no escuro aflito, de paredes e chão cinzas do barro e arenosas da idade. Ali, também, agora havia um homem de argila, que caminhava por entre paredes estreitas e teto circular baixo com um sorriso não percebido no rosto, experimentando seu corpo com liberdade pela primeira vez enquanto caminhava sem direção. Seus braços subiam e desciam como pássaros presos à uma corda; as pernas andavam, depois trotavam e então saltitavam despretensiosas, ávidas por se entender. A voz, também, buscou entender, tentando dizer as poucas palavras que lhe viam a mente e que havia ouvido serem pronunciadas.

Nada saiu de sua boca, se não um chiado do ar que sai sem intenção da boca. Franziu o cenho, certo de que fazia aquilo corretamente. Se pôs a tentar de novo, dessa vez com o foco em outra parte da garganta.

— Mestre — disse sua primeira palavra, com voz rouca e, apesar disso, um tanto aguda.

Não pôde testar sua visão, pois o breu era absoluto, mas isso já havia visto que funcionava e, portanto, não se preocupava tanto. Mas teve a chance de testar sua audição, que a princípio foi em busca dos passos da garota, mas sem sucesso, foi apenas capaz de ouvir, após alguns minutos, a voz de homens e mulheres, tão longes que, dali, mal pareciam sussurros. Talvez eles, que não eram argila, pudessem lhe explicar por que matou seu mestre.

Por fim, experimentou também suas mãos, que se esfregavam nas paredes áspera acumulando pó e pintando seus dedos macios de argila. Seus pés batiam, pisavam ou simplesmente deslizavam pelo chão duro e silencioso, seus passos eram como de fantasmas, ausentes, enquanto caminhava em direção as vozes imateriais. Seguia seus descobrimentos, quando uma luz começou a bisbilhotar pela brecha de uma porta velha, como a que ele havia atravessado mais cedo, tão curiosa para ver o que estava dentro quanto ele estava para ver o que havia do lado de fora. Com um toque gentil ele empurrou a madeira, que rangeu como um senhor obrigado a levantar depois dos cem anos.

Do outro lado, ele ficou surpreso ao ver uma maré de pessoas que fluíam em sua frente. O barulho que faziam sorvia seus ouvidos, das sandálias arrastando a areia vermelha no chão, dos tecidos que se roçavam, das pedras de colares e pulseiras que se chocavam constantemente e, claro, dos murmúrios de vozes masculinas e femininas igualmente altas e constantes. O corredor de pessoas seguia para duas direções, um fluxo ia para a direita e outro, logo atrás, ia para a esquerda. Estavam dentro de uma profunda ravina onde a luz iluminava o centro, que descia ainda muitos andares, as pessoas caminhavam pelas estradas laterais, protegidas na sombra e guardadas por cercas de pedra avermelhada como o resto do ambiente, talhadas de maneira a construírem pequenos arcos.

Sua admiração, infelizmente, teve curta duração, pois do lado da porta de onde havia saído, dois guardas se aproximaram e um deles agarrou-lhe pelo pulso com a pegada forte, que ardia de dor.

— Senhor, temo que você terá que vir conosco. Palavras chegaram a meus ouvidos sobre um assassinato que ocorreu, e a descrição do assassino é um tanto similar a sua aparência.

Faltava cabelo na cabeça do homem, que possuía a mesma pele barrenta da menina de mais cedo, tinha um rosto bonito, bem destacado quando comparado ao guarda a seu lado. Sua armadura de bronze servia mais como decoração do que proteção, com pequenos espinhos na ombreira e detalhes dourados por todo o peitoral – que era fino, mal protegendo as laterais do dorso, e um felino aonde ficaria o coração –, além de um saiote de couro e bronze, que deixava os joelhos descobertos.

— Assassino não, senhor: matador — afirmou o homem de argila com confiança, com o peito inflado de saberes pronto para serem expirados ao mundo — Assassino faz pelo ato ruim, tem má intenção no coração e na atitude, não tem dúvida sobre o que faz; assassino merece punição, sem dúvidas. Mas um matador não, ou pelo menos ainda estou para decidir isso, mas não há má índole na atitude; para matador o meu entendimento é outro.

O guarda semicerrou os olhos enquanto ouvia aquilo, e questionou, a voz denunciando confusão: — Então você admite que cometeu o crime? Não existe diferença: assassino é assassino. E se torna assassino quando mata um homem. Pronto. Não entendi toda essa conversa.

— A não ser que fosse para se defender. — O outro guarda interviu de trás, com os braços abraçados e se apoiando na lança que carregava.

— É, talvez assim seja aceitável. — Ele se virou novamente para o homem de argila — Mas e você, se se considera matador é porque seu motivo deve ser justo. Sua vida estava em risco, por acaso?

— Bem, eu me senti ameaçado, mas não sei dizer se minha vida estava em risco — admitiu com sinceridade infantil.

— Não estava! — gritou com a voz anasalada a garota que havia visto antes na sala, assustando aos três que ali estavam. Ela saiu de detrás de uma loja lateral de onde estava escondida, mesclada com a multidão, seus olhos, antes claros, mas agora bem avermelhados, se viraram para os guardas, e ela disse, com a voz elevada: — Por que só não o levam logo?! Ele já admitiu o que fez! Ele o matou!

O homem de argila a observou gritando, uma lágrima caindo de seu olho esquerdo e rapidamente sendo esfregada por sua mão. Ele não conseguia entender ela. Havia sido aquele homem também seu mestre? Mas ainda que fosse, ela sentia sua morte? Claro, não poderia fingir que também não sentiu algum desconforto ao vê-lo morto, mas não chegava perto ao desconforto visível em seu rosto.

Ele grunhiu de dor quando o guarda, suspirando, voltou a apertar seu pulso. — Por bem ou por mal, ela está certa. Sabe, estamos em um momento complicado, outras aldeias foram atacadas e rumores de espiões rodam por entre os guardas. Certo ou errado, você vai ter que vir conosco.

— Não, senhor, eu não posso.

— Você confessou um crime. Não tem mais volta. — Sua postura mudou, ele ajeitava a voz e aparentava mais como um soldado agora.

— Mas, senhor, eu estou numa busca. Quero entender porquê fiz o que fiz. Sei que não sou assassino, mas matador, e preciso de respostas para certas perguntas. Fico grato por me elucidarem uma situação na qual talvez minha atitude fosse justificável, mas ainda-

O punho do guarda alcançou seu rosto com impaciência, causando imensa dor na lateral do rosto e o fazendo tombar para o lado, somente não caindo por se apoiar no braço que era segurado. Demorou alguns bons segundos para se recompor o suficiente para entender o que o guarda dizia: — …aqui. Já deu de brincadeira, não?

Sua visão ainda estava embaçada, e era difícil distinguir as figuras que se moviam atrás, incluindo o outro guarda, que parecia querer afugentar a garota, mas com o ouvido apitando, era difícil entender o que dizia qualquer um daquela distância, mal escutava o homem ao seu lado. Ele nunca havia se sentido assim antes e já odiava a sensação. Seu rosto pulsava um ardor e o seu corpo parecia se distanciar de si, fazendo o que bem entendesse como um bêbado sem rumo. Um medo e uma raiva cresceram dentro de si e finalmente o entendimento de que, caso não fizesse nada, seria levado e preso contra sua vontade.

E esse pensamento o assustou mais do que qualquer outra coisa.

Com os olhos lacrimejando e os sentidos ainda se reorganizando, sentiu seu braço sendo puxado de súbito para frente. Algo se despertou nele naquele momento, uma sensação familiar, mas que, por motivos específicos de sua primeira aparição, permaneceu escondida a memória até então. Seu antebraço e mãos se moldaram formando a ponta de uma lança, como a que eles seguravam, e, com um puxão, se afastou do guarda, abrindo um corte preciso sobre sua mão e parte de seu braço direito. Sangue caía ostensivamente e a imagem de horror se intensificava com o grito grave que o homem soltou em seguida. Seu parceiro tentou pegar o homem de argila, mas ele já havia corrido.

Suas pernas de argila ardiam enquanto ele corria e seu peito pulsava a cada respiração; arfava ansiosamente, conhecendo pela primeira vez o cansaço. Conhecia pela segunda vez o medo. Sua visão e audição ainda não haviam se recuperado totalmente do soco que o cambaleou há pouco, e mal sabia dizer como ainda não havia tropeçado em alguém no meio da multidão. Trotou por entre corpos na multidão como um filhote que confia no fluxo da manada mais experiente até desacelerar o passo, as pernas prontas para falharem e o peito não mais aguentando o ar rápido que entrava e saia grosseiramente. Uma parte de si ainda queria correr, ainda conseguia sentir o pulso do guarda sobre seu braço e o sentimento que aquilo trazia, mas sabia que não conseguiria, então teve de se convencer que isso seria o suficiente.

Percebeu, olhando a seus arredores, que toda aquela extensão era um mercado, com diversas lojas a sua esquerda, os diversos cheiros, de ardentes a doces, que infiltravam seu nariz sem seres chamados, mas também sem serem expulsos, lhe expandiam os sentidos e faziam ele imaginar os sabores que tais comidas poderiam ter. O roçar de diferentes tecidos e o tilintar dos metais também se fazia constante, um desses barulhos trouxe seu olhar para um homem à sua frente que vestia uma combinação inesperada de colares e tecidos coloridos que o destacava do resto da multidão. Seria uma aposta quase certeira afirmar que aquele homem era mais abastado que os outros a seu redor e, supôs o homem de argila, também mais sábio, portanto.

— Boa tarde senhor.

O homem não se virou para responder. — Boa tarde meu jovem.

— Vejo pelas suas roupas que sua vida lhe garantiu muitas riquezas e, suponho, que entre essas riquezas está a sabedoria. Eu gostaria de fazer uma pergunta.

— Difícil recusar esse pedido após um elogio tão bem ornamentado.

— Pois bem, a atitude de se matar alguém é uma atitude humana?

— Pergunta um tanto profunda, não? Mas fácil. Eu diria que não. Veja, animais matam quando vão caçar ou se sentem ameaçados. Portanto, essa atitude não nos é única — disse o homem. — Entretanto, único talvez seja o motivo pelo qual humanos matem. Quero dizer, eu nunca vi um macaco que matasse outro por vingança ou para cobrar alguma dívida. Isso seria loucura!

— Você diria que argila poderia possuir essa mesma postura?

— Argila? — repetiu ele, com a voz mais baixa. — Não, acredito que não. Me conte se um dia você vir argila correndo por aí com uma faca. Eu com certeza serei o primeiro a correr! — O homem riu cheio.

— Ainda não entendo. Ele não me devia nada, nem muito menos havia feito algo que me instigasse a vingança. Quais outros motivos podem levar uma pessoa a tirar a vida de outra pessoa?

O homem demorou a responder desta vez, voltando com uma voz mais grave e menos intensa, suas palavras eram espaçadas. — Me diga, rapaz. Você matou alguém?

— Sim. — Ele foi tão honesto quanto se poderia ser.

— Você quer algo mais de mim?

— Bem, se você não tiver mais nada a dizer, acredito que não. Sou apenas grato.

O homem escapuliu da multidão na primeira oportunidade que teve e desapareceu entre as lojas no mercado.

A maneira como o homem fugiu o lembrou da garotinha que viu mais cedo, que também saiu correndo chorando quando viu que ele havia matado um homem. Talvez ele entendesse o que ela sentia. Mas agora já havia ido embora e o homem de argila havia se deixado levar muito rapidamente pela multidão para voltar, olhando para trás ele viu uma nova leva de guardas que caminhava na mesma direção que ele. Ainda estavam muito longe para diferenciar rostos, mas ele sentiu medo de que aquele guarda que o queria prender estivesse entre eles.

Por que eles insistiam em vir atrás dele? Por que todos pareciam tão afetados pelo tema da morte? Precisava de tempo para ser si mesmo e pensar como si mesmo, pois talvez assim achasse as respostas que buscava, e não poderia fazer isso se se deixasse privar do seu maior bem, o que recebeu durante o nascimento: a liberdade. Não permitiria que isso acontecesse.

O homem de argila pensou entender algo naquele momento.

Na sua frente, percebeu para onde ia o fluxo de pessoas que seguia: uma plataforma de madeira e laterais de cobre descia puxada por dezenas de cordas e polias, num ritmo quase sempre constante. Dela desceram cinquenta pessoas e um número similar, entre elas o homem de argila e uma mulher, jovem, que levava um enorme carro com um minério alaranjado.

Ambos subiram por último na plataforma sem muita pressa, atrás deles dois trabalhadores fecharam os portões e acenaram para outro grupo ao lado. O chão tremeu por um instante e, no seguinte, as cordas andavam e a plataforma subia lentamente, sem que percebesse agarrou a guarda lateral com força e pregou seus pés no chão – literalmente, teve logo que se recompor antes que alguma de sua argila vazasse pela madeira. A visão de cima era estonteante, sentia-se intocável como uma ave que observa o lobo que saliva impotente abaixo. Mas ele não era ave, era homem e argila, não estava acostumado com a altura e sabia que, eventualmente, deveria pousar.

Lá embaixo, viu os guardas chegarem pouquíssimo tempo depois e discutirem com o homem que parecia a cargo da plataforma, que balançou a cabeça em impotência, e tomou um tapa no rosto por isso. Eles seguiram e entraram em um buraco na parede da ravina um pouco mais à frente, dez, talvez vinte homens.

— Eles estão atrás de você? — perguntou a jovem a seu lado.

— Me acusaram de matar um homem.

— E você o matou? — falou com certa delicadeza, mantendo o tom de sua voz baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse.

Ele não respondeu, encarava o teto, ou melhor, o chão do próximo andar que se aproximava, feito de pedra vermelha assim como o resto. O elevador desacelerava gentilmente à medida que chegava mais perto do próximo ponto de parada, quando parou, entretanto, balançou com tamanha desordem e tão subitamente que quase o fez cair para trás. O resto das pessoas nem pareceram sentir o desequilíbrio.

Mais uma vez, um amontoado de gente saiu, dando espaço para outra multidão, um pouco menor, que entrava. Mais acima, ele via que o próximo andar era muito mais distante.

— Eles dizem que é errado matar. Mas a cada pessoa que pergunto, me dão novos motivos para o que seria considerado uma justificativa para tirar a vida de alguém. Como eu posso saber se o meu motivo foi válido o suficiente?

Ela deslizou o rosto sobre as mãos cobertas pela luva de couro rasgada na ponta de alguns poucos dedos, finalmente se virando totalmente para ele, seus olhos castanhos o observaram por algum tempo. Ela tinha as costas descobertas, vestia uma espécie de avental de linho preso ao corpo por cordas e calças largas que paravam logo antes do chão, remendadas como um pote de argila cheia de rachaduras.

— Meu pai foi morto por um homem — admitiu ela — Minha vida melhorou imensamente desde então. Ele me proibia de trabalhar, de estudar e até de conhecer melhor nossa própria vila. Minha vida ficou tão melhor depois que ele se foi, na verdade, que as vezes até sinto que poderia ter sido eu a mata-lo, me perguntei até se não deveria ter feito isso antes. É um pensamento mórbido, certamente, mas o que seria de mim se ele ainda estivesse vivo?

— Mas você não sente falta dele? Talvez se ele ainda vivesse, algo poderia ter sido resolvido entre vocês. — Uma tristeza começou a subir de dentro dele, um pesar que doía, mas não passava de um leve desalento. De repente, parecia que ouvir tal história, similar a sua, de uma outra boca trazia-lhe uma nova perspectiva sobre o que havia feito. — Então… você está dizendo que tudo bem eu não me arrepender do que fiz?

— Esse cobre que eu estou carregando, será derretido para formar bronze que, eventualmente, será moldado em armas: lanças, espadas, machados. Você não vê nenhum soldado por aí que se arrepende de ter matado um inimigo, mas muitos deles sentem na alma o peso das vidas que tiram – pelo menos é o que ouço andando tanto com eles — disse ela. — Ele não era um inimigo, no sentido comum, mas me atrapalhava a viver. Eu não sei se o meu motivo era válido, mas eu sei que não me arrependo de contratar aquele homem. É assim que penso.

O elevador parou no segundo andar por pouquíssimo tempo, visto que quase ninguém desceu, era um espaço quase vazio, contrastando imensamente com os aglomerados mais abaixo. Quanto mais subia, mais quente ficava. A partir dali, só se ia quando extremamente necessário, e até mesmo as equipes que cuidavam do elevador diminuíam para apenas a quantidade mínima necessária. A próxima parada seria a última, dali a única saída seria a superfície.

— Mas e se a morte dele afetasse outras pessoas além de mim? Quero dizer, mesmo que eu entendesse o que você diz – e eu entendo –, não seria muito egoísta de minha parte eu pensar apenas no que seria melhor para mim no que tange aquela vida? — Sua memória devaneava para quão longe podia em sua curta vida. — Ele era um homem mau. Mas então por que alguém choraria por uma pessoa como ele?

— Um homem mau apenas o é para quem recebe sua maldade; assim como um homem bom apenas o é para quem recebe sua bondade. Nem eu nem você tivemos culpa se o lado que eles escolheram nos mostrar foi o pior que eles tinham a oferecer.

Seus olhos se encontraram, e havia certeza na feição da jovem, uma convicção que não se constrói em um dia, mas sobre uma caminhada constante em direção da razão.

— Eu tive pouco tempo com ele — disse o homem de argila. —, e menos tempo ainda para ouvir o que tinha para dizer. Ele me criou e, mesmo assim, me irritei quando me disse que eu devia algo para ele, como se fosse forçado a seguir seus caprichos. O que fiz em seguida é de mesma natureza que uma ninhada de aranhas que mata sua mãe ao nascer. Foi instintivo, e apenas agora tenho consciência para refletir sobre meu ato.

— Sendo assim, você se arrepende disso agora?

— Não. Acho que não.

— Então é isso — disse ela, ajeitando sua postura à medida que se aproximava do primeiro andar. — Ficará a cargo da nossa morte para julgar nossas ações.

O elevador parou com mais um solavanco, dessa vez no último andar, onde todos os passageiros restantes saíram. Por mais que ali o calor beirasse o insuportável, era ainda mais cheio do que o andar anterior, o calor aqui era aproveitado e utilizado, muitas pessoas trabalhavam por ali, não atoa ela trazia o cobre para ser derretido aqui. Dali, ele conseguia ver o topo da ravina a poucos metros, o sol quase tocava no corredor, embora, agora, sua luz estivesse paulatinamente desaparecendo com o chegar da primeira noite. Era a melhor oportunidade para fugir.

— Eu tenho que ir — disse para a garota. — Obrigado.

— Até mais, homem de argila. — Ela sorriu.

Como ela sabia? O que ela havia visto que os outros deixaram passar? Ele quis perguntar, mas encarou as costas dela enquanto se afastavam, como uma estrela que passou, e coube a ele ter feito seu desejo a tempo. O que podia ter perguntado, perguntou; e o que precisava saber para continuar com sua vida, sabia. Talvez em uma outra oportunidade a faria essa pergunta. E pela primeira vez, ansiou por um momento futuro.

No fim do corredor cercado da ravina avermelhada, uma abertura pouco iluminada finalmente vislumbrava a liberdade como um raio único de sol que chegava até o chão, o último antes de toda a luz ser coberta pela primeira noite.  Lá fora, passados aqueles degraus, ele estaria onde poderia ser o que quisesse, ninguém mais escolheria para ele seu destino e muito menos obrigaria ele a seguir qualquer ordem. Ele seria livre como argila.

Mas ele ainda não poderia seguir.

De uma fresta na parede da ravina, a garota que tentou persuadir os guardas a prendê-lo apareceu arfando em fúria, olhos vermelhos como um demônio e uma faca que tremia em suas mãos como uma senhora assustada. Seus cabelos negros emaranhavam molhados de suor em volta de seu pescoço, mas não fazia nenhum movimento para tirá-los dali. Ela tinha intenção de mata-lo.

— Você o matou — disse ela ofegante.

— Sim — respondeu o homem de argila. — Eu o matei, e não me arrependo do que fiz. E agora, você vai me matar?

— Por que?

— Ele queria algo de mim que eu não poderia dar. E não estava disposto a aceitar nada menos. — Tentava apresentar a mesma convicção da jovem que conversou anteriormente, mas seus olhos não ardiam da mesma maneira.

As mãos da garota tremeram ainda mais, e o olhos pareciam se esforçar para conseguir derramar mais uma lágrima. Ela soluçou: — Ele era doce. Ele era afetuoso. Ele era gentil. Ele me ensinou tanto e tanto…

— E eu gostaria que ele tivesse sido esse mesmo homem para mim. Mas ele não foi. Você também poderia ser todas essas coisas, mas agora age como uma besta. Eu também poderia ser todas essas coisas, mas eu me tornei matador quanto tirei sua vida.

Ela derreteu de joelhos no chão, como a criança que ela deveria ser, e o homem de argila se aproximou, olhando-a com empatia pela primeira vez. Ainda não podia sentir totalmente a dor que ela exprimia, mas parecia mais capaz de compreender a proximidade que tinha daquele homem e de onde surgia toda essa dor. Talvez um dia sentisse tal sentimento, e sua empatia cresça ainda mais forte, mas por agora esse era o melhor que podia fazer.

— Me perdoe — disse ele. — Eu pretendo viver a minha vida agora, visto que nasci há ainda menos tempo que você. Talvez algum dia eu seja capaz de explicar meus motivos mais convincentemente, e você possa ser capaz de ouvi-los sem apontar uma lâmina em minha direção.

Num último golpe desesperado, ela avançou a ponta da faca para a panturrilha do homem de argila que se afastava, cortando uma ferida com um dedo de profundidade. O homem de argila seguiu andando, e a argila se repôs, como se a ferida feita pelo que é homem não fosse capaz de o alcançar.

Os guardas alcançaram os dois naquele momento, tremendo o chão como uma avalanche que se aproxima impávida pelo que esteja em sua frente – exceto que não era exatamente assim, já que alguns dos homens pararam para ajudar a pequena garota, em um ato exclusivo de bondade que ele sabia que não receberia na mesma situação. Corriam furiosos, lanças prontas e armaduras cintilando em sintonia.

Então o homem de argila correu também. Já não era mais estrangeiro a seu próprio corpo, suas pernas corriam de acordo com sua vontade, um pé após o outro; já não disputava o controle de seus braços nem de seu torso; já entendia a sua voz, e com ela ria. Corria com toda a extensão e liberdade de seu corpo em direção aonde não mais seria pego nem ameaçado. Corria para poder decidir o que faria no dia seguinte, e no outro, e em todos os outros a vir. Corria para poder comer o que quisesse, ou para passar fome quando não encontrasse alimento. Corria para ser o que fosse ali, sobre as areias e sob as ravinas, ou nos mares ou após eles, em beira de rios ou por entre as árvores. Corria por si.

Sabia, com certeza, por que havia matado seu mestre. Havia lhe criado, suas memórias e seu conhecimento, mas não poderia lhe dar vida, uma vida de verdade, como a que experimento nas horas anteriores, e que planejava experimentar ao longo dos próximos anos. Essa liberdade lhe seria privada do berço, e ele não achava justo qualquer pessoa ter esse poder sobre ele, poder de lhe dizer o que fazer.

Seria agora livre, seria agora argila, ou homem, ou uma mistura, ou nenhum dos dois. Mas escolheria seu tipo de liberdade e a que tipo de ser se moldaria a partir de agora, seu corpo mudava da maneira que quisesse, contanto fosse livre como aqueles que corriam atrás dele ou como os pássaros que voavam no céu.

Alcançou a escada e, ali, decidiu que uma nova jornada de liberdade começaria, pois, agora, tinha uma nova dúvida: — Qual será o meu nome?

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